|
|
| |
NOTÍCIAS |
|
|
| Uma questão a ser resolvida |
|
| Autor: Revista Information Week - |
| Data : 27/1/2010 |
|
Após discursar em um evento na capital paulista em meados de dezembro, o presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Ronaldo Sardenberg, desceu do palco e, imediatamente, foi cercado por jornalistas. Incitado a avaliar o serviço de banda larga no Brasil, ele soou enfático: “Nosso desempenho é inferior, inclusive, a países da região. Há um consenso de que precisamos de uma atuação muito melhor do que tivemos até agora”.
A oferta de internet em alta velocidade permeou muitas discussões ao longo do ano passado. Muito se reclamou da crise e da elevada carga tributária que incide sobre o setor, mas pouca coisa efetivamente evoluiu. Numa rápida análise, 2009 expôs uma ferida aberta na indústria brasileira de telecomunicações, que viu a demanda pelo serviço atingir números impressionantes.
Em outro contexto, o avanço merecia ser amplamente comemorado. Contudo não foi isso que se viu, pois os provedores estavam sobrecarregados. Os acontecimentos mostraram velhos gargalos no dimensionamento, na oferta e na capacidade de tráfego. Tanto que no mesmo fórum em que o presidente da Anatel citou a frase acima, o diretor de assuntos corporativos da Claro, Rodolpho Tourinho Neto, reconheceu que a operadora cancelou a publicidade de seus serviços de banda larga há cerca de um ano por não conseguir suprir a demanda. “Não nos negamos a vender, mas também não fazemos propaganda”, comentou na ocasião.
Também por conta da banda larga, a Telefônica viveu momentos para lá de críticos no último ano. Em junho, a provedora enfrentou um colapso na oferta do serviço Speedy, ocasionando um “blecaute de internet” para milhares usuários na maior cidade do Brasil. Muitos consumidores reclamaram, os órgãos reguladores de mercado tomaram providências, multaram a companhia e pediram a suspensão da venda do produto por dois meses. Os dois fatos mencionados dimensionam um pouco do que está ocorrendo no segmento.
Na edição de novembro do Balanço da Banda Larga Móvel, encomendado pela Huawei para medir o serviço no terceiro trimestre de 2009, a Teleco mostra a densidade (número de acessos para cada cem habitantes) de 6,1 para o serviço fixo e 3,1 para o móvel. O resultado coloca o País abaixo da média mundial. Em outro momento, a consultoria divulgou um estudo em parceria com a Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil) mostrando um Brasil com 10,4 milhões de assinantes de banda larga no primeiro trimestre.
Especialistas batem na tecla de que teremos 60 milhões de acessos móveis e 30 milhões de fixos até 2014. Um salto impressionante. Considerando conexão permanente com velocidade igual ou superior a 128 Kbps, o Barômetro Cisco, realizado em parceria com a IDC, identificou 13,6 milhões de acessos a banda larga na metade do ano. “A demanda pelo serviço cresce a números exponenciais, superando a expectativa dos provedores”, avalia Júlio Püschel, gerente de consultoria do Yankee Group Latin America. O especialista acredita que as conexões fixas crescerão a um taxa média acumulada anual na casa dos 29%, entre 2003 e 2013. “A banda larga móvel evoluirá de forma mais acentuada”, prevê, projetando um salto dos atuais 7,1 milhões para 83 milhões de linhas de terceira geração (3G) em 2013. Agora resta saber se as operadoras estarão preparadas. DEMANDA Depois de todos eventos contrários, a Telefônica anunciou um plano de investimentos de R$ 70 milhões para melhorias e ampliação da capacidade do Speedy.
“Foi, talvez, o momento mais difícil e necessário pelo qual devíamos passar”, sintetiza Mário Milone, diretor de marketing para pequenas e médias empresas (PME) da provedora, mencionando que os episódios desencadearam uma série de reestruturações para colocar a operação nos eixos. “O incidente nos deu senso de urgência para acelerar o passo em ajustes necessários”. Com clareza, o executivo enxerga o período como um aprendizado e aponta o que pode ser a chave para todas discussões em um futuro próximo: “Observamos — e isto é um fenômeno da indústria de telecom — que ao passo que nossa rede evolui a uma taxa X, o consumo cresce X elevado a dez”, avalia Milone, que quer posicionar seu produto dentro de características como velocidade, consistência e confiabilidade.
Nada muito diferente do buscam todos players de mercado. A Oi, por exemplo, passou por um processo de fusão de operações com a Brasil Telecom (BrT) que consumiu grandes esforços. Só que isto não serviu como desculpa para paralisar expansão e melhoria da rede. De acordo com o vice-presidente da empresa, João de Deus, os investimentos superaram a casa dos R$ 5 bilhões em 2009 e, pelo sétimo ano consecutivo, ultrapassaram os resultados do Ebtida. O número deve se repetir em 2010 com destino semelhante: ampliação de infraestruturas fixa e móvel.
Só que mesmo com todos esses esforços o País está longe de entregar uma banda realmente larga, enquadrando velocidades de 256 Kbps, por exemplo, na categoria. Por esta questão, entidades como a TelComp (Associação Brasileira de Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas) traçam críticas ao serviço ofertado em território nacional. Luis Cuza, presidente do grupo, cita números da Organização das Nações Unidas (ONU) que estabelece 2 Mbps como limite mínimo para banda larga. “O Brasil não pode se limitar à tecnologia do século passado”, aponta o executivo, dizendo que velocidades baixas suportam sistemas simples, mas não dão conta da crescente demanda por aplicativos cada vez mais pesados. Cuza acredita que a proliferação do serviço com mais qualidade e banda pode trazer benefícios sistêmicos. “Gosto de usar como exemplo uma fazenda no Mato Grosso onde há pouco acesso à comunicação”, divaga o especialista. “Se este agronegócio tiver acesso à banda de 10 Mbps, conseguirá obter informações de clima, custo de sua commodity ou logística e poderá treinar os seus funcionários para melhorar certos processos.” Fica clara a revolução que a popularização do serviço traz.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acredita que a banda larga será responsável por um terço dos ganhos de produtividade nas corporações de países desenvolvidos em 2011. O Banco Mundial, por sua vez, fez um estudo e descobriu que um aumento de 10% na penetração do serviço leva, em média, a 1,3% de crescimento o Produto Interno Bruto. Calcule o quanto isto reverteria em um país como o Brasil, com PIB de R$ 2,9 trilhões, em 2008.
Na visão da TelComp, paira outra crítica ao modelo nacional, que explora o serviço apenas em centros urbanos ou regiões onde é possível reverter em lucro rápido a montanha de dinheiro investido pelas operadoras. Não espanta a presença de diversas companhias disputando clientes em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Porto Alegre. Mas Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br, aponta que apenas 4% dos domicílios nas zonas rurais dispõem de internet. Destes, 22% possuem acesso com velocidade superior a 256 Kbps, sendo que o porcentual de residências com conexão acima de 2 Mbps é próximo a zero.
O cenário dimensiona o desafio que será para levar estes benefícios para o interior de um país continental, onde 56% da população está disposta a pagar até R$ 30 para ter internet. PARA TODOS Existe um esforço para universalizar os serviços de banda larga. A ideia é levar internet rápida para quase todos os rincões do Brasil.
Faz um tempo que o governo discute como fazer isso. Elucubrações surgem de todos os lados. Ao que tudo indica, um Plano Nacional deve ser aprovado em 2010. Há muito interesse em jogo e o processo acaba ainda mais lento do que o normal. Mas, como o ano é de eleição presidencial, é bem provável que isto se concretize. No dia 27 de agosto de 2009, representantes da Telebrasil reuniamse no litoral de São Paulo na tentativa de desenvolver ações e objetivos para inclusão digital no País. Uma das metas estabelecidas contempla levar o serviço para 150 milhões de cidadãos até 2014. Ninguém duvida da necessidade de investimento em infraestrutura. A questão é como fazer isso e quem vai pagar a conta. A Carta do Guarujá, como ficou conhecido o manifesto, defende a prioridade de um “Plano Nacional de Banda Larga”, com políticas públicas que contemplem investimentos em redes e outras condições para prestação de serviço. A entidade pleiteia desoneração tributária, redefinição de limites de competência para a implantação de infraestrutura de telecomunicações, entre outros. Em uma aparição na segunda quinzena de dezembro, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmou à Agência Brasil que o governo empenha-se na viabilização de investimentos de R$ 49 bilhões para impulsionar o serviço. A meta é aplicar aproximadamente R$ 15 bilhões, ao ano, até 2014. O responsável pela pasta ressaltou que caberá às empresas de telefonia a maior parte dos recursos. A contrapartida do setor público seria de R$ 26 bilhões, com base em renúncias fiscais. No Brasil, a tributação incidente nos serviços de telecomunicações gira na casa dos 40%. Em outros países, a média de imposto fica por volta dos 17%. Na avaliação de Rivo Manhaes, gerente de oferta de longa distância e serviços convergentes da TIM Brasil, a desoneração ajudaria na melhoria dos serviços ofertados pelas operadoras, que, em segunda análise, reverteria redução nos preços ao consumidor. Mas isto é relativo, pois, como o mercado segue a lei da oferta e da procura e – já vimos que a demanda está alta –, isto pode ser apenas um discurso demagógico. POR UMA FATIA DO MERCADO Três operadoras concentram 86% do mercado de banda larga fixa. A Telefônica está entre estes privilegiados, oferecendo o serviço sobre ADSL (rede de cobre) que permite conexão de até 15 Mbps. Atualmente, a velocidade mais alta no portfólio da companhia sobre essa infraestrutura é 8 megas e a mais procurada é 2 Mbps. Em meados do ano passado, a empresa firmou acordo com o governo do Estado de São Paulo para oferecer um serviço de internet popular de 256 Kbps a um custo de R$ 29,80. A medida visa a alcançar a população de baixa renda e conta com subsídios fiscais. Mais operadoras interessaram-se pelo programa, mas ainda há arestas a aparar para ingressarem. Oi e Net são as outras duas companhias a abocanhar grande parte do mercado fixo de internet rápida. Quando a operadora de TV por assinatura ingressa em uma região consegue acirrar um pouco a competição contra as provedoras tradicionais. Segundo Eduardo Guedes, gerente de marketing de banda larga e telefonia, a empresa encontra-se em 90 cidades.
A GVT ajuda a apimentar a disputa por clientes. A companhia mostra-se a mais agressiva na busca por market share. Em 2005, partiu para ampliação vertiginosa da velocidade de acesso, o que culminou em conexões de até 100 Mbps. Três anos depois, parou de comercializar serviços na faixa dos kilobites e procura praticar preços abaixo do mercado nas 81 cidades onde oferece o produto. O carro-chefe do portfólio é 10 Mbps por R$ 69,90. Cerca de 65% das vendas são nesta faixa. O segredo está na infraestrutura fortemente baseada em fibra ótica, que chega até 800 metros do cliente. A última milha é cobre. Ricardo Sanfelice, diretor de marketing e produtos na operadora, revela que grande parte dos investimentos de R$ 630 milhões realizados no último ano destinou-se à expansão da rede. A empresa separou R$ 850 milhões para aplicar em 2010, dentro de um plano de expansão para cinco grandes cidades, atuando no varejo, incluindo municípios no estado do Rio de Janeiro e São Paulo. A postura arrojada da GVT despertou interesse de compradores a ponto de Telefônica e Vivendi entrarem em uma disputa para ver quem compraria a operadora espelho surgida em Curitiba. A Vivendi ganhou a queda de braço pagando cerca de R$ 7 bilhões pelas ações. Sanfelice prefere não dar detalhes sobre o futuro pós-compra, limitando- se a afirmar que a estratégia já traçada permanece inalterada. O mercado espera que a chegada da francesa traga mudanças significativas.
Luis Cuza, da TelComp, projeta que a entrada do novo player sacudirá o mercado local, pois a injeção de investimento tende a fomentar negócios para a companhia. “Quando as operadoras tradicionais tiverem mais concorrência, os serviços de banda larga no Brasil ficarão parecidos com o de suas matrizes na Europa. A pressão fará eles se mexerem”, analisa.
DE UM LADO A OUTRO Como mostram as pesquisas da Teleco, a banda larga móvel cresce a passos largos, podendo deixar a fixa “na saudade” já em 2011. Durante encontro de fim de ano com a imprensa, o presidente da Claro, João Cox, não titubeou ao definir com um sonoro “três dígitos” a evolução esperada nas vendas do serviço por parte da operadora para 2010. Algumas semanas antes deste episódio, Fiamma Zarife, diretora de serviços de valor agregado da companhia, concedera uma entrevista para esta reportagem. A executiva deixou transparente a evolução da representatividade do serviço de banda larga nas receitas da operadora. “O brasileiro é muito freak por tecnologia”, diz, citando um fenômeno de acessos móveis puxados pela de terceira geração (3G). De uma forma geral, a percepção é que a internet móvel ocupa os (gigantescos) vácuos deixados pelos serviços fixos. “Muitos usuários de internet móvel a acessam de apenas um ou dois lugares”, comenta Rivo Manhaes, da TIM Brasil. Em 2009, a operadora aplicou 60%, de um total de R$ 2,3 bilhões, na rede. Os recursos integram um plano de investimento de R$ 7 bilhões até 2011. No fim de dezembro, a companhia aprovou a incorporação da Intelig de olho em uma infraestrutura de fibra que trará economias de R$ 250 milhões, ao ano, originadas de sinergias. Outro ponto visado é a oferta de internet rápida. Com evolução média de 21%, o serviço de banda larga móvel é um dos que mais cresceu no Brasil ao longo do ano passado. As operadoras enxergam as pepitas de ouro e tentam lapidá-las da melhor forma possível. Os parceiros da Vivo para o mercado corporativo foram direcionados para o tema banda larga. A estratégia permitiu quadruplicar o volume de vendas em comparação a 2008 e o surgimento de soluções baseadas na tecnologia. Na percepção de Rodrigo Shimizu, gerente da divisão de negócios empresas da operadora, a procura pela tecnologia se acentua no interior onde não tem cobertura fixa. “Preenchemos um mercado desatendido.” Entre altos e baixos, falhas e inovação, o mercado deve manter-se aquecido pelos próximos dez anos. Além da constante atualização tecnológica pela qual, naturalmente, passa o setor; dois eventos devem contribuir decisivamente para o futuro da banda larga no Brasil: Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016. O País, de fato, encontra-se em uma encruzilhada e precisa decidir o que quer para o futuro da internet: atender a demanda ou ver multiplicarem- se situações constragedoras de não entrega do serviço.
|
|
| |
 |
| |
|