{"id":16265,"date":"2026-02-02T18:32:58","date_gmt":"2026-02-02T21:32:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.telcomp.org.br\/home\/?p=16265"},"modified":"2026-03-11T17:14:12","modified_gmt":"2026-03-11T20:14:12","slug":"a-compulsao-regulatoria-e-o-pais-do-futuro-que-nunca-chega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.telcomp.org.br\/home\/a-compulsao-regulatoria-e-o-pais-do-futuro-que-nunca-chega\/","title":{"rendered":"A compuls\u00e3o regulat\u00f3ria e o pa\u00eds do futuro que nunca chega"},"content":{"rendered":"<p><b><i>*Artigo assinado por Luiz Henrique Barbosa, presidente executivo da TelComp, que foi publicado no portal Tele.S\u00edntese<\/i><\/b><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Existe uma m\u00e1xima simples, quase uma anedota, mas profundamente pedag\u00f3gica: barbeiro gosta de cortar cabelo \u2014 e, se voc\u00ea descuidar, ele te deixa careca. Com a regula\u00e7\u00e3o acontece algo parecido. Regulador regula. \u00c9 da natureza institucional. \u00c9 o impulso original. E exatamente por isso, em qualquer democracia madura, a atua\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria precisa ser guiada por freios conceituais: identifica\u00e7\u00e3o clara do problema, verifica\u00e7\u00e3o de falha de mercado, an\u00e1lise s\u00e9ria de impactos sociais, econ\u00f4micos e concorrenciais, e, sobretudo, a busca genu\u00edna pelo menor intervencionismo necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>Mas n\u00e3o \u00e9 isso que vemos hoje<\/b><\/p>\n<p>Vivemos em um ambiente que deixou de ser apenas VUCA \u2014 vol\u00e1til, incerto (uncertain), complexo e amb\u00edguo \u2014 e passou a ser tamb\u00e9m BANI, um mundo caracterizado pela fragilidade (brittle), ansiedade (anxious), n\u00e3o-linearidade (non-linear) e incompreensibilidade (incomprehensible). Nesse cen\u00e1rio, novidades tecnol\u00f3gicas e digitais surgem e desaparecem com velocidade vertiginosa, produzindo ondas repentinas de entusiasmo p\u00fablico e press\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Hoje, temas como intelig\u00eancia artificial generativa, data centers como infraestrutura cr\u00edtica, conectividade significativa, computa\u00e7\u00e3o em nuvem, energia renov\u00e1vel, hidrog\u00eanio verde, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, seguran\u00e7a cibern\u00e9tica, 5G\/6G, internet das coisas e tantos outros entram no debate p\u00fablico como \u201ca pr\u00f3xima grande revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Cada novo assunto inaugura uma esp\u00e9cie de corrida por protagonismo: surgem vozes qualificadas e realmente experientes \u2014 mas tamb\u00e9m aparece um contingente de especialistas de PowerPoint, consultores de ocasi\u00e3o e comentaristas que se apresentam como autoridades instant\u00e2neas no tema.<\/p>\n<p>Misturam-se ainda novas \u201centidades representativas\u201d, coaliz\u00f5es improvisadas e movimentos que, muitas vezes, t\u00eam mais ambi\u00e7\u00e3o de influ\u00eancia do que lastro t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>O ambiente fica saturado por uma enxurrada de estudos, relat\u00f3rios, artigos e policy papers, frequentemente embalados para chamar aten\u00e7\u00e3o \u2014 e para justificar alguma a\u00e7\u00e3o estatal imediata. Esses conte\u00fados retroalimentam a sensa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia e impulsionam uma esp\u00e9cie de ind\u00fastria da novidade regulat\u00f3ria.<\/p>\n<p><b>Assim, cada tema hype vira motivo para:<\/b><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">um <a href=\"https:\/\/www25.senado.leg.br\/web\/atividade\/materias\/-\/materia\/157233\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Projeto de Lei<\/a>,<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">um decreto,<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">uma portaria,<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">um regulamento,<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">um comit\u00ea,<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">uma estrat\u00e9gia nacional,<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">um plano decenal, quinquenal ou emergencial (\u00e0s vezes, tudo junto).<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>O resultado? Fric\u00e7\u00e3o. Muita fric\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Criam-se camadas de burocracia que:<\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">n\u00e3o resolvem o problema original \u2014 quando ele sequer existia;<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">aumentam custo de conformidade;<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">desincentivam investimentos;<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">reduzem inova\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">provocam inseguran\u00e7a jur\u00eddica;<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">e tecem, pe\u00e7a por pe\u00e7a, um ambiente hostil para quem produz, investe e empreende.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Enquanto isso, o tema hype desaparece \u2014 engolido pelo pr\u00f3ximo. Mas as regras permanecem. E permanecem para sempre.<\/p>\n<p><b>Brasil e a muralha de regras intranspon\u00edveis<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 assim que o Brasil vai construindo, tijolo por tijolo, uma muralha invis\u00edvel entre o pa\u00eds real e o pa\u00eds poss\u00edvel. Uma muralha feita de boa inten\u00e7\u00e3o legislativa, voluntarismo regulat\u00f3rio e excesso de zelo mal orientado. Criamos, por impulso, a burocracia que depois nos impede de avan\u00e7ar.<\/p>\n<p><b>E \u00e9 aqui que voltamos ao barbeiro<\/b><\/p>\n<p>Se n\u00e3o houver m\u00e9todo, limites e racionalidade, a regula\u00e7\u00e3o nos deixa carecas: sem investimentos, sem competitividade e sem ambiente de neg\u00f3cios minimamente previs\u00edvel.<\/p>\n<p>Precisamos urgentemente recuperar a capacidade (e a coragem!) de perguntar:<\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">Existe realmente um problema?<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">\u00c9 uma falha de mercado ou apenas uma ansiedade coletiva amplificada por redes sociais e consultores ruidosos?<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">Qual \u00e9 o impacto concreto da interven\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">A solu\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria \u00e9 proporcional?<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">N\u00e3o existiriam mecanismos menos intrusivos para endere\u00e7ar a preocupa\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\">E, sobretudo: quem se beneficia e quem perde com mais uma camada de controle estatal?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Enquanto n\u00e3o fizermos essas perguntas com rigor, continuaremos vivendo no mesmo ciclo: frisson, regula\u00e7\u00e3o, entraves \u2014 e abandono do tema logo em seguida.<\/p>\n<p>O resultado final todos conhecemos: o Brasil permanece o pa\u00eds do futuro \u2014 aquele que nunca chega, porque trope\u00e7a repetidamente nas pr\u00f3prias regras que fabrica com entusiasmo e depois esquece de revisar, simplificar ou revogar.<\/p>\n<p>Regula\u00e7\u00e3o \u00e9 ferramenta essencial, sofisticada e poderosa. Mas, como toda ferramenta, precisa ser usada com responsabilidade.<\/p>\n<p>Quando vira compuls\u00e3o, ela n\u00e3o protege a sociedade \u2014 ela a paralisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Artigo assinado por Luiz Henrique Barbosa, presidente executivo da TelComp, que foi publicado no portal Tele.S\u00edntese \u00a0 Existe uma m\u00e1xima simples, quase uma anedota, mas profundamente pedag\u00f3gica: barbeiro gosta de cortar cabelo \u2014 e, se voc\u00ea descuidar, ele te deixa careca. Com a regula\u00e7\u00e3o acontece algo parecido. 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